Cabaninha da Gi


Pessoas Emprestadas - Uma lei da vida!

 

juju, papai, marlo, mamãe e eu - 1976

Hoje acordei com saudade de minha mãe, ela era fã da Imperatriz Leopoldinense, assistia os desfiles na tv, sabia os nomes dos integrantes, na quarta feira cruzava os dedos, torcia comendo pipoca, ela de um lado e eu com ela mas pela verde e rosa.

Minha mãe foi-se embora muito cedo em minha modesta e intrometida opinião, no dia 05/08/1998 às 8:30h da manhã.

Eu a havia encontrado dias antes, 26/07, em sua cama, ser ar, em quase coma. Diagnósticos...bem, ela tinha feito uma curetagem em função de um útero cansado que precisava ser retirado, mas como era época de copa, o Brasil estava perdendo para França, o médico que fez a tal curetagem não apareceu para vê-la, mandou um outro dar alta, que apenas prescreveu num prontuário, nem se quer a viu, desta feita ela voltou para casa.

Porém, em função de uma anemia por ter perdido sangue em suas hemorragias e na tal curetagem ela contraíra infecção hospitalar que evoluiu com um quadro diabético (ao qual desconhecia portar) resultando em óbito dias depois.

Falecera com 49 anos, deixando meu pai, um viúvo desconsolado (única mulher, namorada..etc), um filho autista dependente de tudo, meu irmão e eu completamente a deriva. O nosso navio tombou em águas violentas, tentamos a todo custo seguir adiante. 

Até que meu pai, depois de três meses assistindo a tudo sem ânimo, abriu mão do mundo porque imaginou que seria melhor reencontrá-la em outro canto. Suicidou-se, falecendo dia 08/11/1998.

Mais um buraco no navio, dá-lhe coração, amigos ajudaram, família paterna forçou um Titanic, mas nosso santo foi mais forte, afinal já tinha cochilado um monte até ali.

Minha mãe sempre havia me ensinado que um dia ela morreria, e eu morria de medo é claro. O tal dia veio sem aviso, me deixou repleta de medo, com todos os sentimentos de abandono e perguntas:  como faço agora?

Mas ela também me ensinou coragem, e a  cozinhar, a cuidar do Juju, da casa desde cedo, ela era exigente nestes quesitos, eu reclamava muito, tinha preguiça, mas aprendi. Meu pai, nos deixou casa, algum dinheiro, nos ensinou o que é amar alguém muito e o quanto pode ser perigoso entregar-se a uma pessoa na vida e deixar de existir se ela não estiver ali.

Me ensinou que precisamos entender que a vida é uma passagem, as pessoas nos são emprestadas.

Compreendo meu pai, ele ficou muito doente, deprimido e não viu saída. Acho que Deus também o compreende, ele era português (rssss) e em algum momento acreditou no reencontro imediato com minha mãe.Quem sabe!!! Eu me lembro que meu pai dizia para minha mãe que se ela morresse antes dele, ele iria logo atrás e ela respondia: "olha aqui quando eu morrer e for lá prus infernos, vou me arranjar um diabão bonitão por lá, não vem atrás de mim não heim, me dá sossego" e eles riam um monte...lembrei disso quando meu pai foi enterrado ao lado dela, ri um pouco dentro de mim. Até imaginei a cena, me confortou um pouco.

Hoje vejo a morte como um processo inevitável, falo dela com mais naturalidade e entendo que todas as vaidades deste mundo caem em vala comum quando pensamos na valiosodade do tempo que temos aqui nesse plano de vida. As bobagens, os engodos, as competições ( me refiro a relações), perdem seus significados quando penso na energia desperdiçada. Corro para outras saídas, pego meu sax, beijo meu irmão, vou namorar, brincar com minha cachorra, tomar chuva, comer,  fazer coisa boa, transar, ligar para os amigos, trabalhar feliz com competência...fazer história para quem quiser saber, fazer parte dela. Vem?

Beijos queridos amigos!

foto de casamento de meus pais em 1968*

gif de Marinahttp://www.templatesbymarina.com/



Escrito por Gigi Tomate às 08h15 AM
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